Rosa, a púrpura guerreira

Aqui descansa a guerreira. A pele em chamas. O sangue rubro. Em carne viva.
Tudo o mais é folclore.

de outras memórias (3)


Acho que poderia apaixonar-me por ti, se tivéssemos tempo para isso. Que me dizes? Obviamente, estava a brincar. Não, não podes concordar assim comigo.
Deixa-me vestir o teu casaco, assim por cima da minha pele nua e marcada pelos teus beijos. Quantas mulheres já vestiram, assim nuas, este teu casaco? Vá, não há problema, posso dizer-te quantos casacos de homem já vesti, assim nua.
És bonito. Mas um homem não tem de ser bonito. A tua voz agrada-me e isso já joga mais a teu favor. Também são agradáveis os teus lábios na minha pele.
(...) Viste como a noite caiu sem que nos apercebêssemos? Não tens fome?
Gostei que ficasses a olhar-me enquanto tomava banho. O teu olhar agrada-me. Envolve-me.
Porque olhaste tão fixamente para mim, aliás, para a minha blusa? Achas que te enchem as mãos? E os sentidos? Não, não respondas. Encheram as mãos de alguém que me amou e isso bastou-me.
Sermos amados é bom. Faz-nos sorrir e caminhar a direito. Não sei se o amei, mas isso agora nada importa. Estou contigo e gostei que me fizesses amor. E gosto das histórias que me contas. Fala-me das mulheres que amaste. Quero saber se te faço lembrar alguma delas. Se algo em mim te transporta para alguma dor, para algum prazer passados. Fala-me de como as conheceste. Dos passeios que deram de carro e de mãos dadas. Da primeira e da última vez que fizeste amor com cada uma delas. Do que te diziam. De como te amaram. De como as choraste. De como as esqueceste. De como ficavas acordado para as veres dormir na tua cama. De como desviavas lentamente os lençóis para lhes descobrires a nudez completa, porque adormecida. Quando uma pessoa dorme está completamente exposta, indefesa, nua.


Desculpa a má companhia que te fiz, Sílvia. Sabes, estes dias não me têm sido particularmente gratos. Tenho-me escondido nas minhas memórias, nos comprimidos que me ajudam a dormir mas não me ajudam a fugir aos pesadelos, aos terríveis medos, às más lembranças. Desculpa se te deixei sozinha ficando eu mesma mais sozinha. És minha amiga. Chegas e partes, mas quando estás, és minha, estás presente, disponível. Se te pedir, deixas a tua nova conquista pendurada para ficares a beber comigo, enroladas no mesmo cobertor e trazes-me chocolates.
Desculpa ter-te falhado, não ter estado acordada, ter-me escondido nos suores da minha cama, e ter aí recusado a tua presença, o teu calor. Desculpa se o meu sorriso já não brilha, se não me apeteceu sair contigo à noite ou de dia, se me perdi dentro de mim.
Quando voltares, estarei mais inteira, espero. Assim como espero que não desistas de mim.
Um beijo, amiga-amiga.
 


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