da memória (3)

É o frio. O frio que se mete sob a pele, sob a nossa pele, e se instala, indecoroso e inconveniente. O frio que nos congela os movimentos, que nos transforma os pensamentos, que nos condiciona o desejo.
Na rua, é como se não houvesse pessoas. Apenas bonecos, alguns mal articulados, e por mais que vagueie não consigo ver um homem que me apeteça imaginar sem roupa ou que me apeteça imaginar na cama, em movimentos absurdamente ritmados, nádegas contraídas, testa suada.
É o frio. Indecoroso e inconveniente. Por debaixo da pele. Quase nos sentidos.
A noite está gelada. O meu corpo também. Bebo vodka. Também ela gelada. Daqui por mais uns dois copos já poderei sair, iludindo o frio, passando pela sombra do homem que me espera mas que se esconde de mim. Sairei e encontrarei outros homens. E neles matarei o frio que toma conta de mim.
Vou foder esta noite tantos homens quantos me quiserem. Até esquecer o frio. Até esquecer.


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