da despedida

Lembras-te, Vítor?, eu tinha chegado a casa, vestia o meu vestido azul, aquele que me pedias que vestisse quando saíamos para jantar e que, ironicamente, eu despia em frente ao espelho por não me achar suficientemente elegante dentro dele. Nesse dia o jeito do meu cabelo, uma qualquer particularidade no olhar, a própria luz do dia, tinham-me reflectido no espelho de um jeito que não parecia o meu.
Vi-te sentado à minha espera, o teu sorriso irónico, a tua postura descontraída, o copo vazio no chão, junto aos teus pés.
Não corri a beijar-te, a sentar-me ao teu colo. Não te ouvi quando falaste comigo. Sentei-me um pouco afastada de ti. Descalcei as sandálias, arrefeci os pés no chão frio. Continuei a não te ouvir enquanto falavas comigo.
Nesse dia foi fácil deixar-te partir porque já tinha sido dolorosamente difícil decidir que te pediria que fosses.
Todavia, parecia-me ter, pela primeira vez, a certeza de quanto te amava.
Quando te aproximaste, quando te enroscaste a meus pés e as tuas mãos subiram pelas minhas pernas, por baixo do vestido azul de franjas na orla, a minha pele rejeitou-te. Porque te amava demais para que esse toque pudesse ser apenas mais um e porque me doías como unhas arrancadas. E doías-me tanto mais quanto desconhecias essa dor.
O meu amor por ti, vencedor das minhas fraquezas dominava-me e deixava que me dominasses, que me roubasses o sono e o sorriso e não afugentaste o meu frio quando to pedi porque confiavas na minha capacidade de sobrevivência.
Deixei-te ir com dor porque com dor te amei. Tentei rir-me quando tu próprio te rias do que dizias ser a dramatização da minha vida. Depois deixei de rir e tu fingiste não dar por isso.
Obviamente nada disso importa agora, que o último a sair fechou a porta.


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