do simples bibliotecário
A minha vida é simples, vulgar, nada fiz que mereça registo. Não tenho filhos nem jardins por mim plantados, e livros apenas os tenho emprestados pelo bibliotecário que me apalparia o rabo, se pudesse.
Tens a certeza que não queres ficar comigo?, poderia perguntar-lhe.
Pudesses tu ser a musa que inspiraria a minha vida e estaria agora a massajar-te os pés, responder-me-ia.
Aqui anoitece depressa, sem que eu tenha tempo de viver o dia, sem que eu tenha tempo de perceber o que poderia ter feito e não fiz. Aqui o sol aquece sem brilho nem cor e falta-me a tua presença, poderia dizer-lhe. Tenho a noite, mas passo-a sem ti, acrescentaria. E continuaria ainda, habituei-me à tua presença nos meus dias, às tuas mãos nas minhas, à tua voz no meu silêncio, ao teu calor no desalento dos finais de dia, quando arrefece.
Repito: fazes-me falta.
E isto poderia ser amor.
Que está presente, dir-me-ia.
Mas ausente, responder-lhe-ia.
E nenhum de nós estaria a mentir. Nenhum de nós mentiria e nenhum de nós diria a verdade. Porque ele estaria a pensar nas curvas do meu rabo, e eu nos [homens] que perdi e tive na minha vida.
Onde está essa verdade completa, inteira, aquela que ninguém sabe, nem quem tem os olhos secos e as mãos grandes?
A vida, esta que nos é possível, é a mais inglória de todas as tarefas.



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