Rosa, a púrpura guerreira

Aqui descansa a guerreira. A pele em chamas. O sangue rubro. Em carne viva.
Tudo o mais é folclore.

de outras memórias (1)




Conta-me da cidade onde cresceste enquanto bebemos mais café. Fala-me da rua onde o amor te encontrou pela primeira vez. Da casa onde morou a primeira menina que te acelerou o coração. Fala-me dos caminhos por onde a bicicleta te levava, dos pássaros que perseguias de fisga no bolso das calças. Conta-me a tua primeira foda. Já te disse que as colecciono? Tenho-as todas anotadas num caderno. Todas as que me foram contando, claro, que eu também só tive uma primeira vez. Curiosamente é a única que conheço que não está anotada no caderno. Já me beijaste, posso contar-ta.
Pensávamos estar apaixonados, claro. Ele foi gentil. Deitámo-nos vestidos sobre a colcha da sua cama. Eu olhava o tecto do seu quarto onde tinha desenhado a carvão estranhas figuras metade homem, metade animal. Ardia um pau de incenso para mim. Ele não apreciava o cheiro, mas suportava-o. Ficámos deitados, lado a lado, sem nos tocarmos durante horas. Conversámos. Conversávamos imenso. Tínhamos a vida inteira para descobrir e as dúvidas sucediam-se. Os sonhos também. É bom sermos jovens e termos esperança. Acreditarmos no amor. Torna todas as coisas possíveis. Eu sabia de cor vários poemas desse homem que vês retratado aí à tua frente, ao lado da porta. O sexo existia, então, inevitavelmente aliado à poesia ou ao amor. De olhos fechados, citei-lhe os poemas que falavam de amor. Falavam de amor por um outro homem, mas isso não tinha importância. Era um amor como o que julgávamos sentir. Pleno. Intocável. Eterno. Como todos os primeiros amores. Como quase todos quando nascem. Só mais tarde soube que a poesia lhe fazia sono e agradeci-lhe ter-me ouvido. No amor também cabem estes pequenos sacrifícios, pensava eu.
Puxa mais o teu casaco. Começo a arrefecer e quero sentir-lhe o cheiro. Acende também um cigarro para mim, ajuda-me a recordar.
A chuva continua, reparas? Também chovia nessa tarde. Mas estava calor. Era a chuva tardia da primavera, não era uma tarde como a de hoje.
Ele falava-me das viagens que tinha feito com os pais, em pequeno e eu lembrava-me das suas ausências. Conheciamo-nos desde sempre, como podíamos amar-nos?
Fizemos amor quando devíamos percorrer os campos de mão dada, arreliando-nos ainda.
Apaixonei-me por ele, ou assim acreditei, quando, já despertos para a adolescência demos um dos nossos passeios pelo campo por detrás das nossas casas. Disse-lhe que tinha medo de gafanhotos. Ele, na sua sabedoria de mim, respondeu-me que apenas temia o arame farpado. Caí. Caí completamente e desesperadamente a seus pés. E na sua cama, pouco tempo depois. É tão fácil enganar uma mulher, não é? Basta estar-se atento àquilo que diz. As dicas surgem sem elas se darem conta e eles, inteligentes, agarram-lhes com unhas e dentes. Gosto de pensar que quando me seduzem não o fazem apenas porque é fácil, mas porque tenho alguma coisa de interessante. Tu achas que sou interessante? Minimamente? Apaixonar-te-ias por mim? Porém, deixa-me ser honesta, dou-te as dicas que te quero dar. Nem uma a mais, nem uma a menos. E depois desse primeiro amor, apenas me deixo seduzir quando quero. É sempre assim, não te parece? As pessoas apaixonam-se por quem querem, por quem lhes dá mais jeito. Sim, eu sei que há excepções, mas existem para confirmar a regra, ou não? Ou devo acreditar que o mundo está tão bem arrumado que os amores ou as paixões são correspondidos, na maior parte das vezes. E que me dizes de quem tão depressa esquece um amor fracassado?
 


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