Rosa, a púrpura guerreira

Aqui descansa a guerreira. A pele em chamas. O sangue rubro. Em carne viva.
Tudo o mais é folclore.

da memória (2)


Não se pode dizer exactamente que sinta a falta do Vítor. Mas gostava de me levantar a meio do dia, depois de beber o café forte que me levava à cama para me ajudar a recompôr de uma noite mal dormida e bem fodida. Depois, descalça e nua, com a caneca a aquecer-me as mãos, acercava-me da porta da casa-de-banho e ficava vê-lo barbear-se. Gosto de ver um homem barbear-se. Gosto de o ver em tronco nu, em frente ao espelho. Inclinado para a frente. Os rins hirtos. As nádegas contraídas. Gosto de lhe descer as unhas, suavemente, pela linha da coluna. Arrepiá-lo. Desconcertá-lo. Provocar-lhe um corte. Ligeiro. Gostava quando largava a lâmina e, ainda com espuma em parte da cara, me fodia por trás, magoando-me contra os frios azulejos da parede. Ou então, ficava simplesmente a olhá-lo. Os gestos precisos. O arranhar da lâmina a precisar de ser trocada. O seu ar ligeiramente aborrecido quando percebia que me tinha depilado com ela. Podia ficar a vê-lo. Apenas.
 


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