da cansada vénus
Estou cansada, acaba tu de me matar, tu que nunca me viste, que olhaste através de mim, que fixaste o teu olhar na imagem distorcida que criaste e que acreditas que sou eu. Acaba tu de me matar, tu que nunca acreditaste no meu cansaço, que nunca percebeste na minha insegurança e nos meus silêncios o meu grito, o meu apelo desesperado. Não me ouviste pedir ajuda, acaba agora de me matar, tu que me deixaste chegar ao abismo. Fá-lo de uma vez, fá-lo com um movimento seco, brusco e surdo, sem razões, sem argumentos, não me digas que me odeias, não me digas que me amas. Não me digas nada, tu que nunca me ouviste. Não venhas agora, porque estou desesperada, dizer-me que, finalmente, te apercebeste deste cansaço onde já não cabe dor nem esperança nem angústia nem voz nem nada. Cala-te tu, de uma vez. Cala-te cala-te cala-te que me dóis tanto quanto te amo e por isso te vais embora e me deixas à mercê dos ventos, na beira deste precipício. Guarda as tuas mãos nos bolsos, se não serviram para me puxar para ti, para me segurar em cada tropeção, em cada desequilíbrio. Deixa-me ficar aqui. Deixa-me beber até já não sentir este vento que me empurra. Vira costas. Entra no teu carro, põe a música alta, muito alta, e esquece-te de mim, porque a haver culpas, são minhas. Ainda não tinhas percebido? Canta sobre essa música que toca alta. Cuidado, não te distraias, as estradas estão perigosas. Se puderes esquecer o mal que te fiz, tanto melhor. Se não, procura desculpar-me. Estou cansada. Apenas penosamente cansada. Não devia beber tanto, eu sei. Pareces a Vénus de Milo com dois braços. E se a Vénus de Milo é perfeita com um só braço, o que pensas que és tu, com dois, deitado nu na minha cama? Talvez fosse boa ideia ir dormir. Acordada sou um perigo para mim mesma. (...) Já disse que estou cansada? Expliquei que é do meu próprio silêncio?



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