Rosa, a púrpura guerreira

Aqui descansa a guerreira. A pele em chamas. O sangue rubro. Em carne viva.
Tudo o mais é folclore.

wish you were here




No prato da aparelhagem o mesmo álbum por que aprendia, então, a apaixonar-se. Wish you were here, que começou a ouvir mais ou menos pela altura em que fumava as primeiras ganzas.
Tinha dezasseis anos e estava apaixonada. Abriu-lhe a porta e ele entrou. Ela pouco sabia dessas coisas de ser mulher. Foder era fazer amor. E fazer amor era o que lia nos livros. E aquele homem era ainda o príncipe encantado.
Ele pediu-lhe que vestisse uma saia. Aquela comprida, de gaze, amarela. O plano estava traçado, ele tirar-lhe-ia os três naquela manhã. Mas ela não sabia. Pensava que iam fazer amor e estavam em março.
No prato da aparelhagem continuava o vinil. Pô-lo a tocar.
Subiram para o seu quarto. Estavam sozinhos em casa, os pais tinham saído para trabalhar. Ela faltou à escola.
Não pôde contar-me como tinha sido fazer amor pela primeira vez. Porque não o tinha feito. Tinha-se deitado, ele levantou-lhe a saia até à cintura e fodeu-a.
Ela não lhe viu o corpo nu. Ele não viu o seu, de rapariga virgem.
Quando ouviu os Pink Floyd em palco, tantos anos depois, não foi na fome nem na pobreza que pensou. Foi em tudo o que havia de maldito e penoso na sua vida.
Não pôde contar-me como tinha sido fazer amor pela primeira vez e não soube dizer-me como era o caralho do homem que em cima dela, sem jeito, sem atenção, cheio de tusa e ânsia juvenis, se veio nela sem ela perceber nada.
Passariam alguns anos até saber o que era isso de ter um orgasmo.
Quando o descobriu, pôde finalmente enterrar a má memória.

 


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