dos beijos na boca
E eram tristes os beijos na boca. Davam-se com alma, com saliva, com vontade, com tudo o que neles coubesse. Davam-se esses beijos e neles cabia toda a esperança, toda a crença num futuro fantástico, feliz. Davam-se esses beijos na boca e, quando acabavam, ficava no cheiro das salivas misturadas um travo de tristeza, de profunda tristeza. Depois, por vezes, vezes demais, fazia-se amor. Que nunca era o amor que se procurava. Procuravam-se os sexos, as línguas, os braços, a plenitude. Procurava-se fugir à solidão. Eram tristes os beijos na boca, então. Porque acreditávamos neles e, no fim, no rasto das salivas, só nos ficava a tristeza. Nesses beijos de então não se mediam forças, apenas vontades. Não tinham promessas, nada lhes era exigido, nada era esperado, tudo estava implícito. Eram perfeitos beijos na boca. Perfeitos na sua incomensurável tristeza. Na sua incontornável sentença de beijos efémeros, precários, falíveis.



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