do poeta

Às vezes dizem-me coisas bonitas ("é um pássaro, é uma rosa, é mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, canto na ave, água no mar."), mas eu sei que não é a mim que as dizem. Disse-as o poeta, primeiro, esse mesmo, o poeta que me define. Disseram-nas depois outros homens. Homens que de mim nada sabem além daquilo que quero que saibam. E é tão pouco.
Dizia-me uma amiga que a foda é a coisa mais íntima que de nós damos. Fosse eu crente e pediria a deus que a iluminasse no caminho da sabedoria, que tão perdida tem andado. A foda é o subterfúgio, por excelência.
Dizia-me outra amiga que são os beijos na boca. Por isso as putas não beijam? Nada de mais errado.
São as palavras que calamos aquilo que de mais íntimo temos. Tão íntimo que, por vezes, por pudor ou lá pelo que seja, nem a nós mesmos as contamos.
Ficamos presos na coisa orgânica para nos fluidos nos envolvermos. Aí ficamos, quentes em noites de inverno, não desse, do outro inverno.
E é o prazer, que sublimamos para lá de tudo o que sabemos, a nossa prova de vida.


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