da memória (1)

Hoje acordei com o sol a entrar-me pelo quarto, rompendo as fendas dos estores, rasgando as finas cortinas, perfurando-me as pálpebras. Poderá ser um dia bonito. Ou não. E é esta justa divisão de possibilidades que me retrai.
Espreguiço-me ao longo da minha cama quente de mim. Dormi pouco, como sempre. Não sonhei, há já tanto tempo que não sonho que já nem me lembro da leveza das manhãs após essas viagens.
Lembro-me das manhãs em que acordava ao lado do Vítor, dos seus olhos ensonados, o seu corpo a cheirar a nós, à nossa cama, ao sexo dos dois. Enroscava-me nos seus braços, nas suas pernas e contava-lhe os meus sonhos.
Não sei do que sinto mais falta, se dos sonhos e das manhãs seguintes, se do Vítor. Ou se as duas não são a mesma coisa.
Tenho viajado por ruas, esquinas, camas, corpos, mas a sua ausência apenas se agrava, como se todos os meus dias tivessem por sentido acentuar a falta que me faz.
Começou a fazer-me falta quando ainda estava a meu lado, no momento em que decidi que ainda não tinha fodido todos os homens que queria foder, e porque não o conseguiria fazer tendo-o a ele na minha vida. Não por uma questão de princípios, que não tenho muitos, mas porque a sua presença me absorvia.
(...) O mal foi ele não tirar os olhos de mim, enquanto eu dançava, e nesse olhar eu ver o desejo dos outros homens, mais do que o seu desejo, Vítor, por mim, Rosa Púrpura, para sempre sua mulher, sua amante, sua puta.
À tua infelicidade, Vítor, por teres acedido ao meu pedido de que te fosses embora, eu erguerei todos os meus copos.


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