Rosa, a púrpura guerreira

Aqui descansa a guerreira. A pele em chamas. O sangue rubro. Em carne viva.
Tudo o mais é folclore.

À suivre:

rosa, pura rosa


As pétalas,
mais ou menos púrpura,
continuam, esporadicamente,
na
fundasão.

da espera


Disse-lhe, à Rosa, que isto não lhe ficava bem, desaparecer assim sem se justificar perante quem a esperava.
Sem levantar os olhos da mesa, levantando apenas a mão que segurava o cigarro mais queimado do que fumado, disse-me:
Não me digas nada. Tem paciência. Estou a escrever um livro. O livro. Ou é este ou não será mais nenhum. Não me distraias, deixa-me conhecê-lo primeiro, assim, se o perder, saberei reencontrá-lo. Dizem que escrever um livro é como fazer um filho, mas isso é mentira, um livro dói na criação. Deixa-me estar.”
E eu deixei. Dirigi-me para a porta. Antes de sair, contudo, virei-me para trás e vi a Rosa, essa guerreira de mil cores, dissimulada sob o fumo do cigarro que lhe ardia nos dedos, de cabeça baixa. Temi o seu fracasso. Por ela e por mim.
Saí e fechei a porta. Devagarinho.

da Lola Viola (ou de um presente de natal)


"Ninguém sabe que és linda e que eu te desejo. Desejo-te como namoro um quadro de Dali, reproduzido num livro colorido, desejo-te como seduzo o Boris Vian quando releio a Espuma dos Dias em tradução duvidável, desejo-te como quando escrevo cartas, que nunca mandarei, para o José Saramago, dizendo-lhe como me apaixonei pelas suas mãos brancas e pequenas e me apaixonei por todas as mulheres que ele inventou e que são sempre eu. És linda e eu desejo-te. Mas não sei amar uma mulher como aprendi a amar os homens. Não conheço o teu corpo. Conheço o meu e imagino que és o meu espelho. Possuis a ternura das coxas macias, redondas e doces, em lençóis perfumados. Acaricias as mamas cheias e quentes nos dias de tesão e de lua cheia. Afagas o rosto, os lábios, os olhos com gestos suaves ao espelho onde nos vês. Tocas a melodia certa, quando te masturbas, como pianista virtuosa. És linda e eu desejo-te. Porque és a outra metade de mim. Como se tu e eu fossemos Sereias. Mulheres, metades, incompletas, plenas, peregrinas do prazer. Não sei amar uma mulher como aprendi a amar os homens. Mas és linda, e eu desejo-te."

da metamorfose


Por vezes é como se fosse um estranho misto de mulheres, heterónimos de mim mesma. Quem me conhece? Quem sabe qual de todas sou eu? Que importa sabê-lo, de resto?
Quando me dava ao luxo de me dar mais com os outros, era como se tivesse esses outros catalogados. Uns para as noites de boémia, outros para o chá com Garibaldis a meio da tarde, outros para ter com quem rir, outros para ficar enroscada de pijama a falar até ser dia, outros para me acompanharem a concertos, outros a quem telefonar e que, como eu, gostavam de ficar horas esquecidas a falar de nada, outros para me acompanharem ao cinema, outros ao teatro. Nunca ninguém.
Hoje sou eu, Rosa, Maria, Eva, pouco importa, e os outros pouco espaço ocupam em mim. Tornei-me egoísta, desiludida, amarga, dizem-me alguns. Que sabem eles? Que sabem os outros de cada um de nós?

de outras memórias (3)


Acho que poderia apaixonar-me por ti, se tivéssemos tempo para isso. Que me dizes? Obviamente, estava a brincar. Não, não podes concordar assim comigo.
Deixa-me vestir o teu casaco, assim por cima da minha pele nua e marcada pelos teus beijos. Quantas mulheres já vestiram, assim nuas, este teu casaco? Vá, não há problema, posso dizer-te quantos casacos de homem já vesti, assim nua.
És bonito. Mas um homem não tem de ser bonito. A tua voz agrada-me e isso já joga mais a teu favor. Também são agradáveis os teus lábios na minha pele.
(...) Viste como a noite caiu sem que nos apercebêssemos? Não tens fome?
Gostei que ficasses a olhar-me enquanto tomava banho. O teu olhar agrada-me. Envolve-me.
Porque olhaste tão fixamente para mim, aliás, para a minha blusa? Achas que te enchem as mãos? E os sentidos? Não, não respondas. Encheram as mãos de alguém que me amou e isso bastou-me.
Sermos amados é bom. Faz-nos sorrir e caminhar a direito. Não sei se o amei, mas isso agora nada importa. Estou contigo e gostei que me fizesses amor. E gosto das histórias que me contas. Fala-me das mulheres que amaste. Quero saber se te faço lembrar alguma delas. Se algo em mim te transporta para alguma dor, para algum prazer passados. Fala-me de como as conheceste. Dos passeios que deram de carro e de mãos dadas. Da primeira e da última vez que fizeste amor com cada uma delas. Do que te diziam. De como te amaram. De como as choraste. De como as esqueceste. De como ficavas acordado para as veres dormir na tua cama. De como desviavas lentamente os lençóis para lhes descobrires a nudez completa, porque adormecida. Quando uma pessoa dorme está completamente exposta, indefesa, nua.


Desculpa a má companhia que te fiz, Sílvia. Sabes, estes dias não me têm sido particularmente gratos. Tenho-me escondido nas minhas memórias, nos comprimidos que me ajudam a dormir mas não me ajudam a fugir aos pesadelos, aos terríveis medos, às más lembranças. Desculpa se te deixei sozinha ficando eu mesma mais sozinha. És minha amiga. Chegas e partes, mas quando estás, és minha, estás presente, disponível. Se te pedir, deixas a tua nova conquista pendurada para ficares a beber comigo, enroladas no mesmo cobertor e trazes-me chocolates.
Desculpa ter-te falhado, não ter estado acordada, ter-me escondido nos suores da minha cama, e ter aí recusado a tua presença, o teu calor. Desculpa se o meu sorriso já não brilha, se não me apeteceu sair contigo à noite ou de dia, se me perdi dentro de mim.
Quando voltares, estarei mais inteira, espero. Assim como espero que não desistas de mim.
Um beijo, amiga-amiga.

da memória (3)


É o frio. O frio que se mete sob a pele, sob a nossa pele, e se instala, indecoroso e inconveniente. O frio que nos congela os movimentos, que nos transforma os pensamentos, que nos condiciona o desejo.
Na rua, é como se não houvesse pessoas. Apenas bonecos, alguns mal articulados, e por mais que vagueie não consigo ver um homem que me apeteça imaginar sem roupa ou que me apeteça imaginar na cama, em movimentos absurdamente ritmados, nádegas contraídas, testa suada.
É o frio. Indecoroso e inconveniente. Por debaixo da pele. Quase nos sentidos.
A noite está gelada. O meu corpo também. Bebo vodka. Também ela gelada. Daqui por mais uns dois copos já poderei sair, iludindo o frio, passando pela sombra do homem que me espera mas que se esconde de mim. Sairei e encontrarei outros homens. E neles matarei o frio que toma conta de mim.
Vou foder esta noite tantos homens quantos me quiserem. Até esquecer o frio. Até esquecer.

de outras memórias (2)




Às vezes escrevo canções. E cartas. Se tivermos tempo e me quiseres ouvir, posso contar-te uma quase história de amor resultante dessas cartas. Não olhes para mim assim. Há histórias que podem ser de quase amor. Ou, pelo menos, são de amor até um certo momento. Depois passam a ser histórias de desamor. Ou de desencanto.
Como menino que foste, suponho que não lias histórias de princesas que viviam felizes para sempre. Suponho que daí não passaste para as histórias de amor sem princesas, mas onde, ainda assim, as mulheres e os homens conseguiam ser felizes. Suponho que nunca te iludiste. Mas acredita que há bonitas histórias de amor. E de desamor.
Preferiria ter sonhado com naves espaciais e extraterrestres. Como é viver essas aventuras? Que leveza nos deixam? A da imaginação? A das viagens?
Conta-me como eras em menino. Passavas o teu tempo com construções que nunca estavam terminadas? Guerreavas? Tinhas um amigo imaginário? Eu nunca tive. Não precisei. Sempre procurei um certo tipo de solidão. Aliás, de isolamento. Diziam-me que eu tinha a mania que era superior. Mas não era nada disso. Era apenas selectiva.
Ainda hoje sou, com os homens a quem dou um pouco de mim. Pouco, sim. Dou-lhes apenas a minha pele. A pele é uma superfície, uma ténue capa, um revestimento, um sofá onde se está confortavelmente, mas onde não passamos de meras visitas.

da despedida



Lembras-te, Vítor?, eu tinha chegado a casa, vestia o meu vestido azul, aquele que me pedias que vestisse quando saíamos para jantar e que, ironicamente, eu despia em frente ao espelho por não me achar suficientemente elegante dentro dele. Nesse dia o jeito do meu cabelo, uma qualquer particularidade no olhar, a própria luz do dia, tinham-me reflectido no espelho de um jeito que não parecia o meu.
Vi-te sentado à minha espera, o teu sorriso irónico, a tua postura descontraída, o copo vazio no chão, junto aos teus pés.
Não corri a beijar-te, a sentar-me ao teu colo. Não te ouvi quando falaste comigo. Sentei-me um pouco afastada de ti. Descalcei as sandálias, arrefeci os pés no chão frio. Continuei a não te ouvir enquanto falavas comigo.
Nesse dia foi fácil deixar-te partir porque já tinha sido dolorosamente difícil decidir que te pediria que fosses.
Todavia, parecia-me ter, pela primeira vez, a certeza de quanto te amava.
Quando te aproximaste, quando te enroscaste a meus pés e as tuas mãos subiram pelas minhas pernas, por baixo do vestido azul de franjas na orla, a minha pele rejeitou-te. Porque te amava demais para que esse toque pudesse ser apenas mais um e porque me doías como unhas arrancadas. E doías-me tanto mais quanto desconhecias essa dor.
O meu amor por ti, vencedor das minhas fraquezas dominava-me e deixava que me dominasses, que me roubasses o sono e o sorriso e não afugentaste o meu frio quando to pedi porque confiavas na minha capacidade de sobrevivência.
Deixei-te ir com dor porque com dor te amei. Tentei rir-me quando tu próprio te rias do que dizias ser a dramatização da minha vida. Depois deixei de rir e tu fingiste não dar por isso.
Obviamente nada disso importa agora, que o último a sair fechou a porta.

de outras memórias (1)




Conta-me da cidade onde cresceste enquanto bebemos mais café. Fala-me da rua onde o amor te encontrou pela primeira vez. Da casa onde morou a primeira menina que te acelerou o coração. Fala-me dos caminhos por onde a bicicleta te levava, dos pássaros que perseguias de fisga no bolso das calças. Conta-me a tua primeira foda. Já te disse que as colecciono? Tenho-as todas anotadas num caderno. Todas as que me foram contando, claro, que eu também só tive uma primeira vez. Curiosamente é a única que conheço que não está anotada no caderno. Já me beijaste, posso contar-ta.
Pensávamos estar apaixonados, claro. Ele foi gentil. Deitámo-nos vestidos sobre a colcha da sua cama. Eu olhava o tecto do seu quarto onde tinha desenhado a carvão estranhas figuras metade homem, metade animal. Ardia um pau de incenso para mim. Ele não apreciava o cheiro, mas suportava-o. Ficámos deitados, lado a lado, sem nos tocarmos durante horas. Conversámos. Conversávamos imenso. Tínhamos a vida inteira para descobrir e as dúvidas sucediam-se. Os sonhos também. É bom sermos jovens e termos esperança. Acreditarmos no amor. Torna todas as coisas possíveis. Eu sabia de cor vários poemas desse homem que vês retratado aí à tua frente, ao lado da porta. O sexo existia, então, inevitavelmente aliado à poesia ou ao amor. De olhos fechados, citei-lhe os poemas que falavam de amor. Falavam de amor por um outro homem, mas isso não tinha importância. Era um amor como o que julgávamos sentir. Pleno. Intocável. Eterno. Como todos os primeiros amores. Como quase todos quando nascem. Só mais tarde soube que a poesia lhe fazia sono e agradeci-lhe ter-me ouvido. No amor também cabem estes pequenos sacrifícios, pensava eu.
Puxa mais o teu casaco. Começo a arrefecer e quero sentir-lhe o cheiro. Acende também um cigarro para mim, ajuda-me a recordar.
A chuva continua, reparas? Também chovia nessa tarde. Mas estava calor. Era a chuva tardia da primavera, não era uma tarde como a de hoje.
Ele falava-me das viagens que tinha feito com os pais, em pequeno e eu lembrava-me das suas ausências. Conheciamo-nos desde sempre, como podíamos amar-nos?
Fizemos amor quando devíamos percorrer os campos de mão dada, arreliando-nos ainda.
Apaixonei-me por ele, ou assim acreditei, quando, já despertos para a adolescência demos um dos nossos passeios pelo campo por detrás das nossas casas. Disse-lhe que tinha medo de gafanhotos. Ele, na sua sabedoria de mim, respondeu-me que apenas temia o arame farpado. Caí. Caí completamente e desesperadamente a seus pés. E na sua cama, pouco tempo depois. É tão fácil enganar uma mulher, não é? Basta estar-se atento àquilo que diz. As dicas surgem sem elas se darem conta e eles, inteligentes, agarram-lhes com unhas e dentes. Gosto de pensar que quando me seduzem não o fazem apenas porque é fácil, mas porque tenho alguma coisa de interessante. Tu achas que sou interessante? Minimamente? Apaixonar-te-ias por mim? Porém, deixa-me ser honesta, dou-te as dicas que te quero dar. Nem uma a mais, nem uma a menos. E depois desse primeiro amor, apenas me deixo seduzir quando quero. É sempre assim, não te parece? As pessoas apaixonam-se por quem querem, por quem lhes dá mais jeito. Sim, eu sei que há excepções, mas existem para confirmar a regra, ou não? Ou devo acreditar que o mundo está tão bem arrumado que os amores ou as paixões são correspondidos, na maior parte das vezes. E que me dizes de quem tão depressa esquece um amor fracassado?

na cama com o poeta



Quando ela ainda acreditava que o amor era como nos livros; quando ainda se sentia feliz por ter guardado a sua preciosa virgindade para o primeiro amor e não para o primeiro que lha quis roubar; quando ela ficava deitada com esse homem que foi um estranho mas primeiro amor; quando as tardes passavam quentes na rua e eles ficavam suados na sua cama, abraçados, por momentos em paz;

ela gostava de tirar da estante um dos livros de poesia do Eugénio de Andrade. De lhe ler certas passagens, aquelas que ela ia sublinhando, descobrindo sempre mais uma imagem perfeita, sempre a frase certa, sempre o amor que queria que lhe dissessem (...) um dia.

Com o passar do tempo, acabou por lhe ler todos os poemas. Aos retalhos. Esperando dele uma resposta à sensibilidade. Procurando nele o complemento para si mesma.

Durante uns tempos amou o homem que escrevia aquelas palavras. Repetia-lhe o nome, baixinho: Eugénio. Deixando a volúpia encher-lhe a boca quando chegava à letra G. Mais tarde o poeta fez-lhe companhia. Foi sempre fazendo alguma companhia. Por causa do fracasso com as primeiras leituras de cama, como se o sexo se compadecesse dessas coisas, ela insistiu na tentativa durante alguns amantes. Quando ainda acreditava que o sexo não existia por si só. Quando ainda acreditava que o amor era como nos livros.

(...) Morreu-lhe o poeta. E o amor está nos livros.

do simples bibliotecário


A minha vida é simples, vulgar, nada fiz que mereça registo. Não tenho filhos nem jardins por mim plantados, e livros apenas os tenho emprestados pelo bibliotecário que me apalparia o rabo, se pudesse.
Tens a certeza que não queres ficar comigo?, poderia perguntar-lhe.
Pudesses tu ser a musa que inspiraria a minha vida e estaria agora a massajar-te os pés, responder-me-ia.
Aqui anoitece depressa, sem que eu tenha tempo de viver o dia, sem que eu tenha tempo de perceber o que poderia ter feito e não fiz. Aqui o sol aquece sem brilho nem cor e falta-me a tua presença, poderia dizer-lhe. Tenho a noite, mas passo-a sem ti, acrescentaria. E continuaria ainda, habituei-me à tua presença nos meus dias, às tuas mãos nas minhas, à tua voz no meu silêncio, ao teu calor no desalento dos finais de dia, quando arrefece.
Repito: fazes-me falta.
E isto poderia ser amor.
Que está presente, dir-me-ia.
Mas ausente, responder-lhe-ia.
E nenhum de nós estaria a mentir. Nenhum de nós mentiria e nenhum de nós diria a verdade. Porque ele estaria a pensar nas curvas do meu rabo, e eu nos [homens] que perdi e tive na minha vida.
Onde está essa verdade completa, inteira, aquela que ninguém sabe, nem quem tem os olhos secos e as mãos grandes?
A vida, esta que nos é possível, é a mais inglória de todas as tarefas.

da memória (2)


Não se pode dizer exactamente que sinta a falta do Vítor. Mas gostava de me levantar a meio do dia, depois de beber o café forte que me levava à cama para me ajudar a recompôr de uma noite mal dormida e bem fodida. Depois, descalça e nua, com a caneca a aquecer-me as mãos, acercava-me da porta da casa-de-banho e ficava vê-lo barbear-se. Gosto de ver um homem barbear-se. Gosto de o ver em tronco nu, em frente ao espelho. Inclinado para a frente. Os rins hirtos. As nádegas contraídas. Gosto de lhe descer as unhas, suavemente, pela linha da coluna. Arrepiá-lo. Desconcertá-lo. Provocar-lhe um corte. Ligeiro. Gostava quando largava a lâmina e, ainda com espuma em parte da cara, me fodia por trás, magoando-me contra os frios azulejos da parede. Ou então, ficava simplesmente a olhá-lo. Os gestos precisos. O arranhar da lâmina a precisar de ser trocada. O seu ar ligeiramente aborrecido quando percebia que me tinha depilado com ela. Podia ficar a vê-lo. Apenas.

hoje não


percorri todas as moradas de uma avenida infinita
bati os dois lados do rio, interroguei os cafés
espiei passageiros com a tua imagem na mão
sentei-me numa esplanada, com um cigarro na boca
desistir não, nunca
folheei-te em cada livro teu
despi personagens de encontro às paredes
tacteei-lhes o corpo em busca de sinais, coincidências
só gemidos, lamentos, desculpas
ninguém te viu
ninguém sabe de ti
hoje não é um dia bom
não te encontrei
(E se me tivesses encontrado? Poderias ter-me amado?)

da cansada vénus


Estou cansada, acaba tu de me matar, tu que nunca me viste, que olhaste através de mim, que fixaste o teu olhar na imagem distorcida que criaste e que acreditas que sou eu. Acaba tu de me matar, tu que nunca acreditaste no meu cansaço, que nunca percebeste na minha insegurança e nos meus silêncios o meu grito, o meu apelo desesperado. Não me ouviste pedir ajuda, acaba agora de me matar, tu que me deixaste chegar ao abismo. Fá-lo de uma vez, fá-lo com um movimento seco, brusco e surdo, sem razões, sem argumentos, não me digas que me odeias, não me digas que me amas. Não me digas nada, tu que nunca me ouviste. Não venhas agora, porque estou desesperada, dizer-me que, finalmente, te apercebeste deste cansaço onde já não cabe dor nem esperança nem angústia nem voz nem nada. Cala-te tu, de uma vez. Cala-te cala-te cala-te que me dóis tanto quanto te amo e por isso te vais embora e me deixas à mercê dos ventos, na beira deste precipício. Guarda as tuas mãos nos bolsos, se não serviram para me puxar para ti, para me segurar em cada tropeção, em cada desequilíbrio. Deixa-me ficar aqui. Deixa-me beber até já não sentir este vento que me empurra. Vira costas. Entra no teu carro, põe a música alta, muito alta, e esquece-te de mim, porque a haver culpas, são minhas. Ainda não tinhas percebido? Canta sobre essa música que toca alta. Cuidado, não te distraias, as estradas estão perigosas. Se puderes esquecer o mal que te fiz, tanto melhor. Se não, procura desculpar-me. Estou cansada. Apenas penosamente cansada. Não devia beber tanto, eu sei. Pareces a Vénus de Milo com dois braços. E se a Vénus de Milo é perfeita com um só braço, o que pensas que és tu, com dois, deitado nu na minha cama? Talvez fosse boa ideia ir dormir. Acordada sou um perigo para mim mesma. (...) Já disse que estou cansada? Expliquei que é do meu próprio silêncio?

da solidão



Às vezes, quando bebia demais, enroscava-me perdida em não sei que medos. Soltava as acusações mais fantasiosas, alimentava a má memória, deixava-me escorregar para o chão, de garrafa na mão e soltava palavras que entre lágrimas e soluços nenhum sentido faziam.
Era quando eu sabia que o Vítor se preocupava comigo. Apagava-me o charro, levantava-me do chão, limpava-me as lágrimas. Abraçava-me. Levava-me para a cama, despia-me, soltava-me o cabelo.
Depois deixava-me adormecer num abraço, no seu peito nu, no seu cheiro, na sua pele sempre bronzeada de pirata dos mares revoltos.
Quando acordava algumas horas depois, a cabeça a pulsar como cona em final de orgasmo, ali estava ele, sereno, desperto, à minha espera, na cadeira do quarto, cinzeiro no joelho, mais um cigarro a queimar entre os dedos.
Levantava-se e estendia-se a meu lado. Sentia um beijo nos meus cabelos e ouvia apenas “Já passou. Já está aí o sol.”
Depois eu passava noites e noites sem beber. Em paz.
Agora não. Agora não.

das estrias


O que é isso de ter estrias no cérebro?, perguntaste tu.
Sabes como é quando ganhas peso e depois o perdes e se repete o processo sucessivas vezes?, perguntei eu em jeito de resposta.
Não devias preocupar-te com isso. Não as tens em lugar algum, digo-te eu, que conheço cada poro do teu corpo.
Mas não conheces o meu cérebro. Deixa-me explicar-te: estas estrias são o que fica quando te sentes feliz, depois miserável, depois confias de novo e sorris, e à noite quando adormeces já o mundo desabou de novo sobre ti, e assim sucessivamente.
Tu ficaste calado. Que responder?
As estrias podem emprestar-nos alguma personalidade, como as cãs ou as rugas, mas também nos desfeiam; impedem o sorriso; impossibilitam os orgasmos de nos libertarem. Sabes que é uma via de dois sentidos possíveis, não sabes? Que podemos libertá-los ou que podem ser eles a libertar-nos. Com as estrias passa a ser via de sentido único.
Acendeste um cigarro. Um apenas, para ti. Como poderias perceber o enleio de estrias que é o meu cérebro? Eu vi-me no espelho dos meus próprios olhos enquanto tentava vir-me ao som de Smetana.
Vá-se lá perceber.

da fénix


Dizem que dói parir um filho. Pois sim, acredito que não se trate só de abrir as pernas e dilatar a cona para que passe qualquer coisa de bem grande, isso já eu experimentei e não dói, com algum engenho.
Mas dói, com toda a certeza, nascermos de nós mesmos, depois de termos morrido, de alguma forma.
Eu sou esta rosa que uma vez murchou. Renasci. Renasci de mim mesma depois de me ter virado do avesso, de ter arrancado a minha pele, de ter arrumado velhas gavetas e armários, de ter pendurado espanta-espíritos no alpendre, saindo de olhos abertos pela minha própria cona, púrpura de tantos embates, que em verdade se diga, sempre me pus a jeito.
O mérito não é outro senão este de me armar em fénix que pensa que pode sair a voar pela janela, "que era eu sem a vida, que era a vida sem mim?".
É um mérito muito meu este que me permite sorrisos inteiros, orgasmos profundos, abraços verdadeiros.
Saio à rua e poucos notam a diferença. A mulher é a mesma, as mesmas botas de saltos altos, o mesmo cabelo negro, o mesmo ritmo no andar. Mas olho-me ao espelho e já são muitos os dias em que gosto de me ver. Vejo-me nua e já não é só rosa-carne o que vejo, é também pele. E dentro da pele sinto-me, já não estou zangada.
Voltei à casa.

do cocktail com o meu nome

(ou do cocktail para noites de verão, porque vão ser muitas e vou estar distante)

Ingredientes
1 quilo de morangos agressivamente vermelhos
6 pêssegos médios, maduros, macios e carnudos
½ chávena de açúcar ou mel
1 garrafa de vinho branco suave ou seco, daquele que nos acompanha nas noites quentes
3 garrafas de champagne rosé, bem gelado e nervoso
Modo de preparação
Despir lenta e cuidadosamente os pêssegos. Separar pequenas e bem desenhadas fatias, como se fossem as pernas de uma virgem amada. Deitá-las numa cama de cristal e regá-las com o vinho branco. Deixá-las acalmar no frio durante 2 horas. Arrepiá-las depois com o champagne gelado. Decorar com os morangos inteiros.
Beber até saciar os sentidos.

dos beijos na boca


E eram tristes os beijos na boca. Davam-se com alma, com saliva, com vontade, com tudo o que neles coubesse. Davam-se esses beijos e neles cabia toda a esperança, toda a crença num futuro fantástico, feliz. Davam-se esses beijos na boca e, quando acabavam, ficava no cheiro das salivas misturadas um travo de tristeza, de profunda tristeza. Depois, por vezes, vezes demais, fazia-se amor. Que nunca era o amor que se procurava. Procuravam-se os sexos, as línguas, os braços, a plenitude. Procurava-se fugir à solidão. Eram tristes os beijos na boca, então. Porque acreditávamos neles e, no fim, no rasto das salivas, só nos ficava a tristeza. Nesses beijos de então não se mediam forças, apenas vontades. Não tinham promessas, nada lhes era exigido, nada era esperado, tudo estava implícito. Eram perfeitos beijos na boca. Perfeitos na sua incomensurável tristeza. Na sua incontornável sentença de beijos efémeros, precários, falíveis.

da memória (1)




Hoje acordei com o sol a entrar-me pelo quarto, rompendo as fendas dos estores, rasgando as finas cortinas, perfurando-me as pálpebras. Poderá ser um dia bonito. Ou não. E é esta justa divisão de possibilidades que me retrai.
Espreguiço-me ao longo da minha cama quente de mim. Dormi pouco, como sempre. Não sonhei, há já tanto tempo que não sonho que já nem me lembro da leveza das manhãs após essas viagens.
Lembro-me das manhãs em que acordava ao lado do Vítor, dos seus olhos ensonados, o seu corpo a cheirar a nós, à nossa cama, ao sexo dos dois. Enroscava-me nos seus braços, nas suas pernas e contava-lhe os meus sonhos.
Não sei do que sinto mais falta, se dos sonhos e das manhãs seguintes, se do Vítor. Ou se as duas não são a mesma coisa.
Tenho viajado por ruas, esquinas, camas, corpos, mas a sua ausência apenas se agrava, como se todos os meus dias tivessem por sentido acentuar a falta que me faz.
Começou a fazer-me falta quando ainda estava a meu lado, no momento em que decidi que ainda não tinha fodido todos os homens que queria foder, e porque não o conseguiria fazer tendo-o a ele na minha vida. Não por uma questão de princípios, que não tenho muitos, mas porque a sua presença me absorvia.
(...) O mal foi ele não tirar os olhos de mim, enquanto eu dançava, e nesse olhar eu ver o desejo dos outros homens, mais do que o seu desejo, Vítor, por mim, Rosa Púrpura, para sempre sua mulher, sua amante, sua puta.
À tua infelicidade, Vítor, por teres acedido ao meu pedido de que te fosses embora, eu erguerei todos os meus copos.

do poeta



Às vezes dizem-me coisas bonitas ("é um pássaro, é uma rosa, é mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, canto na ave, água no mar."), mas eu sei que não é a mim que as dizem. Disse-as o poeta, primeiro, esse mesmo, o poeta que me define. Disseram-nas depois outros homens. Homens que de mim nada sabem além daquilo que quero que saibam. E é tão pouco.
Dizia-me uma amiga que a foda é a coisa mais íntima que de nós damos. Fosse eu crente e pediria a deus que a iluminasse no caminho da sabedoria, que tão perdida tem andado. A foda é o subterfúgio, por excelência.
Dizia-me outra amiga que são os beijos na boca. Por isso as putas não beijam? Nada de mais errado.
São as palavras que calamos aquilo que de mais íntimo temos. Tão íntimo que, por vezes, por pudor ou lá pelo que seja, nem a nós mesmos as contamos.
Ficamos presos na coisa orgânica para nos fluidos nos envolvermos. Aí ficamos, quentes em noites de inverno, não desse, do outro inverno.
E é o prazer, que sublimamos para lá de tudo o que sabemos, a nossa prova de vida.

de pólvora


Que já não me conhecia, disse-me da última vez que nos encontrámos. Que via em mim todas as mulheres, Lulu, Lolita, Hilda, Nin, Norma, Marguerite, Bibian Norai que seja, bem se perdeu em nomes, melhor ainda se esqueceu de outros, mas que já não via a Rosa, a sua púrpura paixão.
Ri-me, obviamente. Mais um shot sem me engasgar, o bâton carmim a contrastar com a minha palidez de pele morena, a conquista recente a marcar o território com a mão quente e suada no meu ombro e o Vítor que não me via.
E eu que o via como quem vê o inimigo. E eu sorrindo-lhe enquanto todo o corpo me doía. E eu aceitando não sei de que mão outro copo, despejando mais um shot, mais um tiro de pólvora despejado na garganta funda de tanto ardor, as gotas entornadas no peito, salpicos de uma despedida que começou cedo demais, antes de eu ter aprendido a ser esta rosa com mais espinhos do que aroma.
Eu a rodopiar nos braços da nova conquista, zonza, perdida em não sei que sonhos, mad about you, are you the fishy wine that will give me an headache in the morning? Eu, não sei em que braços. Os braços não sei de quem na nuca do Vítor, Vítor, mio marito, mi hombre, o que é um homem?

da ilusão


Esta busca desenfreada de uma certa cumplicidade, de confiança, destas coisas a que se convencionou chamar amor e que se procuram nas camas mais indistintas, impessoais e improváveis, mais não é do que a desesperada vontade de termos quem testemunhe a nossa própria vida.
Se foder muito e com muitos estarei a iludir-me, certamente, mas quase consigo acreditar nesta mentira que é eu ter estado viva enquanto me vim.

do corsário


A praia já começa a não ser aprazível. Com a chegada do calor, chegam também os veraneantes, irritantes. É o café, o de sempre, afinal, o da esplanada à beira-rio que me acolhe. É aqui que me sento, sempre com os mesmos óculos escuros, e é aqui que espero o minuto seguinte.
A noite passada dormi com um homem que encontrei à beira-rio, sentado em frente a um copo vazio. Era um corsário, disse-me. Desconhecido para ele próprio, disse-me. Falou-me do mar e do seu navio. Das mulheres, sereias, putas, princesas, sempre a mesma mulher em todos os portos, em todos os corpos, em todos os copos quebrados em todas as viagens. Quebrado ele próprio, disse-me. Quebrados estamos todos, disse-lhe. Dormi com um corsário de areia nos dedos e sal nas palavras, e sal na pele, e sal no sexo, na pele, no sexo. Enlaçou-me o corpo, salgado de dor, os seus membros prolongamentos dos meus, o seu prazer eco do meu. Amou-me o corpo com a violência dos solitários, dos homens tornados bestas de inquietação. Amou-me sem preconceitos, sem barreiras. Deixei-me amar nessa cama tão desconhecida quanto ele. Tão desconhecida quanto eu. Deixei-me amar por todas as noites que entretanto esqueci, pelas noites futuras em que não me reconhecerei. Disse-me e disse-lhe o que nos fez falta saber, nesta linguagem universal que é o sexo imediato, disponível, sem amor, sem conhecimento do outro ou de nós próprios, sem palavras. O sexo dos homens, das mulheres de sal e areia, dos corpos que se sentem, que se mentem, na entrega imediata, breve, breve, breve, prazer breve, vida breve, vida tão breve. Todavia tão forte e reconfortante. São assim os piratas, disse-me. São assim os homens, disse-lhe. São assim as mulheres, disse-me. E outra vez me enlaçou, e outra vez o devorei, faminta de sal, agora sedenta, agora morta de sede e cansaço satisfeito, comprazido. E a sua pele curtida de tantos amores vividos, adiados, afogados, em cada porto, em cada corpo, de novo despertou a brutalidade da terra que sou, da água que sou, do fogo que sou. Gosto do teu amor, disse-me na sua voz gasta de tanto repetir as mesmas mentiras, as mesmas máscaras da verdade desconhecida, perdida e achada, nos portos passados, sempre perdidos e achados. Um porto é um grilhão, disse-lhe, mais do que um abrigo. Um porto cega-nos, ensurdece-nos. Não, disse-me, um porto dá-nos tréguas, ilude-nos. Conforta-nos essa ilusão. É a verdade que nunca nos conforta. Disse-lhe que não sei, que nunca a conheci, nunca a encontrei. Disse-me que sim, que a encontrei, apenas não a reconheci, nunca me foi apresentada. Deu-me o exemplo do orgasmo como a mais inequívoca das verdades. E eu lembrei todas as histórias (...) de orgasmos mentidos, de orgasmos mentidos por favor, por pena, por vergonha de não serem verdadeiros, mas calei o argumento quando me lembrei que são, de facto, o melhor exemplo da verdade. Qualquer verdade, o corpo não mente, a pele arrepia-se se temos frio, os beijos não são beijos se não se quiserem dar. Ou receber. E nós damos os melhores beijos do mundo, não é verdade? Verdade, verdadinha. E o prazer não se mente. Só se deixa iludir quem está demasiado preocupado com o seu próprio prazer. O que se procura em tantos corpos?, perguntei, de olhos fechados. Procuramos a fuga, respondeu-me. De que foges tu? De que foges agora? Fujo das tuas perguntas, fujo da verdade que é o amor possível, fujo da própria fuga. Mas um pirata não é um homem corajoso, valente? Um pirata é um homem com cara de mau. Um pirata é um homem que em tudo encontra refúgio, até na própria verdade. Então, faz-me amor outra vez, a mim que temo todas as verdades e todas as mentiras, faz-me amor tu, que tens o sexo descomunal, bronzeado, agreste e agressivo, tu que fugirás na próxima mudança de maré, faz-me amor a mim, que fugirei antes daquela hora mágica em que o sol nos obriga a ver as verdadeiras cores das nossas próprias limitações.
E ele fez-me amor, e eu fiz-lhe amor e, se não mentimos, tão pouco trocámos verdades, porque não conhecíamos, afinal, nenhuma das duas. O amor que se faz, sem compromisso, este amor que se chama sexo, este amor banalizado que se procura como fonte de água fresca, deixa-nos como? Não respondas. Quero apenas sentir-te. Sentir o teu corpo pesado sobre o meu, sentir o teu sexo descomunal, já to disseram essas mulheres sereias, putas, princesas com quem dormiste nesses portos perdidos e achados?, senti-lo ganhar vida por mim, para mim. Essa que é uma força da natureza, incontornável, que é, afinal, a mais pura das verdades, que está à minha frente, que entra agora em mim, que me viola, que me violenta, que me acalenta, esse sexo — descomunal, já to disseram?— que me rasga a solidão, que me mente em cada espasmo, essa saliva que me enche a boca de sal, que me traz sal à vida, que me acorda, de repente, como quem nos abre a janela do quarto ao meio dia e nos deitámos cheios de álcool e de solidão quatro horas antes, e abrimos os olhos para uma realidade desconhecida, desconexa, desconcertante e desconcertada. Assim é a tua língua na minha, no meu sexo, assim é o teu sexo — descomunal — no meu, na minha boca, violento, brutal, violento, violento. Brutal. Brutal como o sol nos olhos ressacados, como a verdade, como a mentira.

da caixa de ressonância



"Eu a partir da caixa de ressonância que tenho nos genitais", dizia-me. Tens o quê?
E ele explicava. Explicava que todo o seu sexo era como o mais lindo soneto cantado por voz agitada, que o ritmo era inspirado nas nossas fodas inesperadas, aquelas que dávamos um ao outro em qualquer canto da casa, em qualquer momento, deixando-nos livres para adormecer abraçados e cansados quando à noite nos deitávamos.
"Caixa de ressonância..."?, insistia eu.
"Já não percebes a diferença quando alguém que te ama te fode?"
Mas não era disso que se tratava. Não era uma questão de perceber a diferença. Uma foda era uma foda, pensava eu.
Ele abanava a cabeça, abraçava-me e repetia "Eu a partir da caixa de ressonância que tenho nos genitais."

wish you were here




No prato da aparelhagem o mesmo álbum por que aprendia, então, a apaixonar-se. Wish you were here, que começou a ouvir mais ou menos pela altura em que fumava as primeiras ganzas.
Tinha dezasseis anos e estava apaixonada. Abriu-lhe a porta e ele entrou. Ela pouco sabia dessas coisas de ser mulher. Foder era fazer amor. E fazer amor era o que lia nos livros. E aquele homem era ainda o príncipe encantado.
Ele pediu-lhe que vestisse uma saia. Aquela comprida, de gaze, amarela. O plano estava traçado, ele tirar-lhe-ia os três naquela manhã. Mas ela não sabia. Pensava que iam fazer amor e estavam em março.
No prato da aparelhagem continuava o vinil. Pô-lo a tocar.
Subiram para o seu quarto. Estavam sozinhos em casa, os pais tinham saído para trabalhar. Ela faltou à escola.
Não pôde contar-me como tinha sido fazer amor pela primeira vez. Porque não o tinha feito. Tinha-se deitado, ele levantou-lhe a saia até à cintura e fodeu-a.
Ela não lhe viu o corpo nu. Ele não viu o seu, de rapariga virgem.
Quando ouviu os Pink Floyd em palco, tantos anos depois, não foi na fome nem na pobreza que pensou. Foi em tudo o que havia de maldito e penoso na sua vida.
Não pôde contar-me como tinha sido fazer amor pela primeira vez e não soube dizer-me como era o caralho do homem que em cima dela, sem jeito, sem atenção, cheio de tusa e ânsia juvenis, se veio nela sem ela perceber nada.
Passariam alguns anos até saber o que era isso de ter um orgasmo.
Quando o descobriu, pôde finalmente enterrar a má memória.

do sonho



Estava apenas semi-adormecida. Senti o ar fresco, teria, provavelmente, deixado uma janela mal fechada. Levantei-me, passei a porta da sala e senti o choque do frio e a vertigem do medo. Não vi as estantes de livros que esperava. Vi um lago. E na beira do lago, areia branca. E juncos, poucos, quase mortos. Avancei, a medo, não me lembrava daquele lago à porta da sala. O vento era fraco e trazia-me o cheiro do bosque, no Outono. O nevoeiro não me deixava distinguir, de modo claro, o vulto, na margem do lago, a alguns metros de mim. Fui-me aproximando, lentamente, descalça sobre a areia grossa. Senti medo, mas era como se esse medo não fosse meu, como se fizesse parte do ar denso que, a custo, respirava. Olhei para trás e já não vi a sala. Atrás de mim só havia mais bosque, tão compacto que não percebi que carreiro me tinha levado ali. Notei as pegadas na areia mole e não consegui perceber quem as poderia ter deixado ali. Um homem, um animal? Fui-me aproximando devagar, por entre o nevoeiro tão densamente húmido, o cabelo colava-se-me ao rosto e escurecia. O vulto que distinguira ao longe ia tomando forma. Parecia-me um animal, afinal. Um cão? Um lobo? Era um lobo, sim. O cheiro do bosque, misturado agora com o cheiro de animal selvagem despertava-me a sensualidade de um modo inteiramente desconhecido e genuíno. O vulto movia-se. Olhei para trás, de novo e assustei-me. Atrás de mim estava eu própria, deitada num sofá azul escuro, a fumar um cigarro e a sorrir. Olhei então para baixo, para o meu próprio corpo e não me reconheci. Estendi as palmas da mão para a frente, virei-as para cima e eram umas mãos compridas e magras, pálidas como as madrugadas mais frias. Senti-me alta, muito alta. Vestia um vestido comprido, de tules sobrepostos, sobre o qual me caíam os cabelos negros, compridos e molhados. À minha frente o vulto movia-se, em gestos breves e lentos. Avancei, devagar, a areia sempre grossa e mole sob os meus pés. O vulto girou sobre si, ligeiramente, para a direita. E eu vi, então. Não era um animal, não era um lobo. Era um homem, jovem, muito jovem. Parecia não ter dado pela minha presença, continuava, acocorado, a traçar runas na areia. Continuei a aproximar-me, com passos leves, etéreos, quase esvoaçantes. O meu vestido prendeu-se, então, num galho que se quebrou com um estalido seco. O homem virou-se, sorrindo-me.
"— Tenho estado à tua espera. Há já muito tempo que te espero. Espero-te desde o tempo em que eras uma fada e vivias de amor e magia, e eu era ainda um lobo. Tenho seguido quase todos os teus passos, só te perco quando as águas se turvam. Nesses momentos, sento-me aqui, nesta margem, desenho runas onde te conto a minha história, as minhas histórias, onde te falo do rapaz que fui antes de ser lobo, do lobo que fui antes de ser homem, do nome que tinha, onde te confesso os meus medos e te conto como os superei, onde te desenho este amor que vive de breves desencontros, onde te indico o caminho para a tua felicidade, que quase nunca é o mais largo, nem o mais iluminado, nem sequer esse que segues. Tens sentido os meus afagos? De noite? Quando te deitas sozinha na tua cama larga e fria? Quando te esqueces de ti e mascaras de contentamento o vazio que te queima os sentidos? Nunca te deixei sozinha, e, no entanto, sinto que não dás pela minha presença, pelo meu bafo quente que te aquece a pele, pela minha presença constante nos teus sonhos. Perdes-te em carícias solitárias e desespero. Não te ouves chorar. Pensas, distancias-te, racionalizas, e esqueces-te de sentir. Esqueces-te de me sentir. Ainda assim, nunca desisti de ti. Sabia que acabarias por vir até mim. Tens frio? Posso acender a fogueira. Daqui a pouco, daqui a muito pouco anoitece. Podes aninhar-te nos meus braços como costumavas fazer, mas não sei se ainda vais caber no meu regaço. Tu cresceste, tenho-te visto crescer. Não cabes em ti própria. Não cabes em lado nenhum. Não cabes sequer na infelicidade que trazes sempre contigo. Se preferires, deita-te, simplesmente, na areia. Não sentirás frio, prometo."
Deitei-me. A areia estava fria, mas aqueceu-me o corpo. Não me lembro de alguma vez ter sentido assim o meu corpo, leve, quente, sereno. Senti-o aproximar-se. Fechei os olhos. Senti-lhe o bafo quente de animal selvagem. Senti-lhe as mãos, quentes, peludas, pesadas, imensas, acariciarem-me os cabelos molhados, desenharem-me os contornos do rosto gelado, pararem nos lábios, hesitantes, descerem até à curva do queixo, seguirem em linha recta até ao meu ventre, muito devagar. Cerrei os dentes e os olhos, antecipando a dor. A mão direita do homem descreveu três círculos em volta do meu umbigo, desceu mais um palmo, e num movimento brusco entrou em mim, provocando-me a dor lancinante que acabaria por me adormecer.

da Sílvia


A Sílvia voltou hoje. Mais uma relação falhada e ei-la de novo a bater à minha porta, o seu quarto tal como o deixou na noite em que, mais uma vez, se iludiu com a possibilidade de uma felicidade sempre tão mal procurada.
Trouxe macarrão com queijo, que comprou no italiano aqui da rua, mas esqueceu-se do vinho branco. Tivémos que beber tinto, o que foi uma pena já que eu não gosto e assim bebi muito pouco. Ainda assim foi bom quando enroscámos as pernas na banheira, espuma até chatear, os irritantes U2 que ela escolhe sempre e o portátil a acusar nudges de não sei quem que me queria falar.
Ficámos na banheira até muito depois de a água ter arrefecido. Aproveitei para lhe pedir que me depilasse as virilhas, tenho andado tão descuidada, deve ser porque o Duarte teima em foder-me por trás, repara lá se estou depilada ou não.
Tinha saudades dela e não o sabia. Tinha saudades das suas mãos de seda na minha cona púrpura. Tinha saudades de mim mesma, nela. Tinha saudades de um orgasmo à la Sílvia.

da pedra


Se calhar toda a gente guarda sempre uma pedra no sapato que a cada passo que se dá nos lembra que ali está. Se calhar toda a gente tem, sei lá, uma gaveta por fechar, uma história de final apressado, um pé teimoso que não deixa fechar a porta do quintal.
Se calhar toda a gente tem uma pedra que se pode chamar Vítor ou outro nome qualquer e cuja memória morde a pele, rasga a pele mas que não é mais do que uma memória, quando muito uma sombra, um eco, eu sei lá.
Se calhar não há quem adormeça à noite e acorde de manhã com a mesma serenidade.
Se calhar querer coisa diferente é utopia, quem pode saber?

pouco

Não é facilmente imaginável a dificuldade que é foder com um homem como o Carlos. Fazia minetes com delicadeza, como se estivesse a cheirar a mais frágil das flores. Tinha uma pila tão pequena que além de não me encher a boca, nem cócegas me fazia na cona. E, pior do que tudo, não se calava.
Eu ficava horas à procura da minha boa vontade, da minha paciência. E quando já estava cansada, lá descia a minha mão em busca da minha purpurina para dar a mim mesma o orgasmo que o fulano não sabia sequer onde morava. Mas não, nem a isso eu tinha direito. Na sua amabilidade, dizia-me: deixa-me fazer por ti. E ali ficava a fazer-me festinhas no clit como se afagasse o gato da prima. Empenhava-se, coitado, mas não passava disso.
No final, valiam os abraços. Os mais intensos e envolventes que já amansaram esta guerreira.
Só que depois de me masturbar na casa de banho, all alone, já não havia abraço que me acalentasse.

fora da casa

Chegavas como se a casa fosse tua. Sorrias como se ainda fosse bom estarmos juntos. Escolhias a música, bebias o vinho, tiravas os sapatos. Despias-me e eu apenas ficava nua. Gostavas dos meus orgasmos mas gostavas mais dos teus. Demoravas-te na banheira o tempo de dois cigarros que eu fumava nua à janela. Mais dois cigarros e o vapor do duche dissipava-se enquanto tu chegavas e me enlaçavas, seguravas nas tuas mãos as minhas mamas maceradas.
Depois eu saía da casa que era minha mas que tu tomavas como tua. Gosto de ver gente depois de fazer amor. Quando voltava trazia comida feita e comíamos na sala. Depois tu saías.
Mudei a fechadura mas não sei se deste por isso.

da cama

O calor é o meu alibi para me agarrar à garrafa gelada de vinho branco, para me deitar nua na cama, para manter os estores corridos e imaginar que estou algures a Oriente, ou pelo menos com um oriental. Não um qualquer, aquele d'O Amante, da Duras. Foi o primeiro corpo de homem que achei verdadeiramente bonito e, todavia, não me lembro do nome do actor. Apenas me lembro do seu corpo e do modo como pronunciava a palavra Nevers.
Rebolo um pouco na cama em busca de tecido fresco. O calor faz de mim uma cobra preguiçosa mas atenta e ouço lá fora os pneus que chiam no alcatrão escaldante. Lá detrás desses postigos do filme e do livro os pneus não chiavam no alcatrão. Havia suor, entrega, confiança. Tanta confiança. É por isso que gosto de cinema. E de livros. De coisas romanceadas, enfim.
Mas estou no meu quarto penumbroso e bebo porque tenho calor, apenas porque tenho calor. Quase ao volume da minha respiração, a música, como se não me quisesse incomodar. Porque será que a música tantas vezes me incomoda? No cinema tem de haver música de fundo.
Estou nua sobre a minha cama, o lençol enrolado aos pés, meio caído no chão. Não aspiro há já uma semana.
E o telefone mantém-se em silêncio.

da casa

No momento preciso em que fecho a porta atrás de mim, começo a respirar. Uma respiração tão mais grata quanto chega após a longa apneia a que me voto fora deste meu castelo.
Aqui sou rainha, amazona, guerreira em descanso. Aqui olho-me no espelho e não vejo outra que não eu, mulher denunciada pelas olheiras das noites e dos dias, dos risos e dos sisos, "das manhas e das manhãs" diria a outra, a brasileira da canção.
Aqui sou o que sou, sem máscaras, armaduras, maquilhagem, circunstância.
Esta sou eu, de volta à casa.
 


Divulgue o seu blog!